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A interpretação simplória de críticas complexas

Dos vários hábitos negativos que cultivamos, que prejudicam principalmente a nós mesmos, eu penso que o hábito de não questionar é um dos mais tóxicos para o nosso potencial de expansão de consciência, de crescimento e de felicidade.

Me assusta o caminho que estamos tomando quando eu vejo pessoas que dialogam, ou melhor, que rebatem e atacam, sem mesmo parar um minuto para elaborar uma pergunta sobre o assunto. Simplesmente derramam suas certezas. Tomam por verdade sua perspectiva, sem ao menos tentar entender a perspectiva de quem fala. Eu não sei você, mas eu sou extremamente curiosa para saber o que eu ainda não sei.

Eu vejo opiniões e pensamentos diferentes como pessoas posicionadas em diferentes lados da mesma montanha. Os dois lados existem, mas claramente só conseguimos ver o nosso. Como deve ser a vista do outro lado da montanha? Se eu não consigo estar lá, ainda assim eu vou querer saber como é, quero que me fale mais sobre o que eu não consigo ver.

A interpretação simplória de uma crítica complexa

Quando lemos ou ouvimos algo, automaticamente buscamos pelos pontos que concordamos e discordamos, preparados para aplaudir ou desdenhar. Mas raramente adotamos uma posição de distanciamento, observação e análise.

Não nos esforçamos para contextualizar e entender que muitas vezes aquela informação não tem nada a ver com você, ou com o ângulo de visão que você tem. Talvez aquela opinião que você discorda fala sobre outros contextos e outro ponto de vista que não é o seu.

E isso não faz daquela manifestação, que difere da sua, uma desaprovação, nem uma aprovação. É apenas um comentário enraizado em lugares que talvez você não tenha conhecido. Porque a verdade é que não existe verdade, e tudo é apenas uma perspectiva.

Se você não está aberto a ouvir e refletir à crítica, sem criar julgamentos impulsivos, então está fechado ao seu próprio crescimento. Porque é no questionamento que crescemos e entendemos mais sobre nós mesmos e sobre o mundo. Refletir sobre o questionamento levantado é relevante, ainda que seja para chegar a conclusão de que a sua posição inicial era o que realmente faz mais sentido pra você, e agora com ainda mais propriedade do que antes.

Procuramos definir o certo e o errado, ao invés de considerarmos que isso é o certo para aquela pessoa, e eu sou uma pessoa diferente então o certo pra mim é outro. E tá tudo bem.

Uma crítica manifestada pede diálogo e o desejo de compreensão sobre algo, e quando bem apresentada abre espaço para debate e para a construção de ideias.

O que é uma crítica

Fiz uma pesquisa informal com algumas pessoas sobre o que elas entendiam como crítica. Achei Interessante ver a conotação negativa que elas expressaram. Muitas pessoas entendem como crítica quando alguém fala que “algo nelas, ou que elas fizeram, é ruim ou está errado”.

O que me fez refletir se estamos usando a palavra crítica da forma correta. As palavras importam porque elas carregam toda uma energia, e essa energia influencia em como nos sentimos e no que pensamos, o que resulta nas nossas ações.

E se “de repente” nós passássemos a amar críticas? Como seria essa dinâmica?

A crítica, ao contrário da conotação comum que foi dada à palavra,  não é algo negativo. Ela é um levantamento de um questionamento sobre algo. Por vezes pode não parecer um questionamento explícito, podendo ser interpretada apenas como uma afirmação contraditória, mas isso é só porque você ainda não enxergava a crítica dessa forma, até agora.

Eu enxergo na crítica um “me fale mais sobre isso que eu demonstro discordar”. Toda fala, opinião, “certo” e/ou “errado” nasce de uma perspectiva, de um ângulo do olhar. E a crítica é um questionamento levantado a partir de uma perspectiva de alguém, que pode ser, e provavelmente é, diferente da sua.

Isso é maravilhoso porque nos oferece duas oportunidades:

  1. Um espaço para você expandir o seu olhar e buscar um entendimento de um outro ponto de vista (não necessariamente concordar com a perspectiva diferente da sua, mas de expandir o seu campo de reflexão).
  2. De se questionar mais a fundo sobre o tópico e levantar razões, exemplos, motivos, e elaborar quase uma tese para si mesmo sobre porque aquilo faz sentido para você; ou mudar de opinião, o que é ótimo também, é como explorar o outro lado da montanha.

A crítica não é uma condenação, isso é outra coisa.

Existe crítica construtiva?

“Uma crítica “construtiva” é quando alguém te faz mal com a desculpa que tá te ajudando.” Eu confesso que ri quando ouvi essa visão sobre o que era um crítica, achei sincero e claro.

“Uma crítica construtiva é quando vem um questionamento acompanhado de uma sugestão.” Essa foi outra resposta, mas não, nem toda crítica é acompanhada de uma sugestão de como as coisas deveriam ser, porque a existência da crítica por si só é uma pergunta. E se há pergunta é porque se está em busca de uma resposta.

A crítica pode ser construtiva ou não, dependendo de quem recebe e do que se faz com ela.

Da minha perspectiva, o que quer que seja, só é “construtivo” quando nós usamos esse algo, de fato, para construir. Não faz sentido entregar ao outro o poder de definir se algo é construtivo ou não para você, baseado em como ele(a) faz isso.

Pense em uma crítica como um tijolo, você pode levar um na cabeça e doer, ou pode pegar ele, juntar com argamassa e construir uma parede, um degrau, um pilar, enfim, o que fizer sentido pra você.

Depois de ter conversas sobre o que seria um crítica construtiva, cheguei a conclusão que tudo pode ser construtivo, depende do que você faz com o que recebe. Nada é construtivo por si só, você precisa construir.

Dessa forma, o que vai dizer se algo é positivo, negativo ou neutro é você.

Existe liberdade e leveza em se empoderar da decisão sobre o significado do que chega até você. Afinal deve ser frustrante e cansativo entregar esse poder na mão dos outros e viver torcendo para que venha do jeito que você espera receber.

3 Reflexões sobre a crítica

1 – “Obrigada a você (que critica) por me fazer refletir sobre isso.”

2 – “O mundo é maior do que eu (receptor) conheço e do que eu sei. Tudo é mais complexo do que eu tenho acesso. O mínimo que eu posso fazer é não julgar e estar aberto(a) à todas as percepções para incorporá-las dentro do meu campo de processamento.”

3 – Nem toda crítica (questionamento) precisa ser respondida ou discutida. Entenda se cabe a você ou não, se faz sentido pra você ou não. E se não cabe, então deixe ir.

Como seria ouvir uma crítica sem julgá-la? Como você se sentiria ouvindo coisas sem precisar reagir à elas, considerando-a neutra, sem precisar determinar como algo bom ou ruim?

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A interpretação simplória de críticas complexas

By
Nathalia Montenegro

Dos vários hábitos negativos que cultivamos, que prejudicam principalmente a nós mesmos, eu penso que o hábito de não questionar é um dos mais tóxicos para o nosso potencial de expansão de consciência, de crescimento e de felicidade.

Me assusta o caminho que estamos tomando quando eu vejo pessoas que dialogam, ou melhor, que rebatem e atacam, sem mesmo parar um minuto para elaborar uma pergunta sobre o assunto. Simplesmente derramam suas certezas. Tomam por verdade sua perspectiva, sem ao menos tentar entender a perspectiva de quem fala. Eu não sei você, mas eu sou extremamente curiosa para saber o que eu ainda não sei.

Eu vejo opiniões e pensamentos diferentes como pessoas posicionadas em diferentes lados da mesma montanha. Os dois lados existem, mas claramente só conseguimos ver o nosso. Como deve ser a vista do outro lado da montanha? Se eu não consigo estar lá, ainda assim eu vou querer saber como é, quero que me fale mais sobre o que eu não consigo ver.

A interpretação simplória de uma crítica complexa

Quando lemos ou ouvimos algo, automaticamente buscamos pelos pontos que concordamos e discordamos, preparados para aplaudir ou desdenhar. Mas raramente adotamos uma posição de distanciamento, observação e análise.

Não nos esforçamos para contextualizar e entender que muitas vezes aquela informação não tem nada a ver com você, ou com o ângulo de visão que você tem. Talvez aquela opinião que você discorda fala sobre outros contextos e outro ponto de vista que não é o seu.

E isso não faz daquela manifestação, que difere da sua, uma desaprovação, nem uma aprovação. É apenas um comentário enraizado em lugares que talvez você não tenha conhecido. Porque a verdade é que não existe verdade, e tudo é apenas uma perspectiva.

Se você não está aberto a ouvir e refletir à crítica, sem criar julgamentos impulsivos, então está fechado ao seu próprio crescimento. Porque é no questionamento que crescemos e entendemos mais sobre nós mesmos e sobre o mundo. Refletir sobre o questionamento levantado é relevante, ainda que seja para chegar a conclusão de que a sua posição inicial era o que realmente faz mais sentido pra você, e agora com ainda mais propriedade do que antes.

Procuramos definir o certo e o errado, ao invés de considerarmos que isso é o certo para aquela pessoa, e eu sou uma pessoa diferente então o certo pra mim é outro. E tá tudo bem.

Uma crítica manifestada pede diálogo e o desejo de compreensão sobre algo, e quando bem apresentada abre espaço para debate e para a construção de ideias.

O que é uma crítica

Fiz uma pesquisa informal com algumas pessoas sobre o que elas entendiam como crítica. Achei Interessante ver a conotação negativa que elas expressaram. Muitas pessoas entendem como crítica quando alguém fala que “algo nelas, ou que elas fizeram, é ruim ou está errado”.

O que me fez refletir se estamos usando a palavra crítica da forma correta. As palavras importam porque elas carregam toda uma energia, e essa energia influencia em como nos sentimos e no que pensamos, o que resulta nas nossas ações.

E se “de repente” nós passássemos a amar críticas? Como seria essa dinâmica?

A crítica, ao contrário da conotação comum que foi dada à palavra,  não é algo negativo. Ela é um levantamento de um questionamento sobre algo. Por vezes pode não parecer um questionamento explícito, podendo ser interpretada apenas como uma afirmação contraditória, mas isso é só porque você ainda não enxergava a crítica dessa forma, até agora.

Eu enxergo na crítica um “me fale mais sobre isso que eu demonstro discordar”. Toda fala, opinião, “certo” e/ou “errado” nasce de uma perspectiva, de um ângulo do olhar. E a crítica é um questionamento levantado a partir de uma perspectiva de alguém, que pode ser, e provavelmente é, diferente da sua.

Isso é maravilhoso porque nos oferece duas oportunidades:

  1. Um espaço para você expandir o seu olhar e buscar um entendimento de um outro ponto de vista (não necessariamente concordar com a perspectiva diferente da sua, mas de expandir o seu campo de reflexão).
  2. De se questionar mais a fundo sobre o tópico e levantar razões, exemplos, motivos, e elaborar quase uma tese para si mesmo sobre porque aquilo faz sentido para você; ou mudar de opinião, o que é ótimo também, é como explorar o outro lado da montanha.

A crítica não é uma condenação, isso é outra coisa.

Existe crítica construtiva?

“Uma crítica “construtiva” é quando alguém te faz mal com a desculpa que tá te ajudando.” Eu confesso que ri quando ouvi essa visão sobre o que era um crítica, achei sincero e claro.

“Uma crítica construtiva é quando vem um questionamento acompanhado de uma sugestão.” Essa foi outra resposta, mas não, nem toda crítica é acompanhada de uma sugestão de como as coisas deveriam ser, porque a existência da crítica por si só é uma pergunta. E se há pergunta é porque se está em busca de uma resposta.

A crítica pode ser construtiva ou não, dependendo de quem recebe e do que se faz com ela.

Da minha perspectiva, o que quer que seja, só é “construtivo” quando nós usamos esse algo, de fato, para construir. Não faz sentido entregar ao outro o poder de definir se algo é construtivo ou não para você, baseado em como ele(a) faz isso.

Pense em uma crítica como um tijolo, você pode levar um na cabeça e doer, ou pode pegar ele, juntar com argamassa e construir uma parede, um degrau, um pilar, enfim, o que fizer sentido pra você.

Depois de ter conversas sobre o que seria um crítica construtiva, cheguei a conclusão que tudo pode ser construtivo, depende do que você faz com o que recebe. Nada é construtivo por si só, você precisa construir.

Dessa forma, o que vai dizer se algo é positivo, negativo ou neutro é você.

Existe liberdade e leveza em se empoderar da decisão sobre o significado do que chega até você. Afinal deve ser frustrante e cansativo entregar esse poder na mão dos outros e viver torcendo para que venha do jeito que você espera receber.

3 Reflexões sobre a crítica

1 – “Obrigada a você (que critica) por me fazer refletir sobre isso.”

2 – “O mundo é maior do que eu (receptor) conheço e do que eu sei. Tudo é mais complexo do que eu tenho acesso. O mínimo que eu posso fazer é não julgar e estar aberto(a) à todas as percepções para incorporá-las dentro do meu campo de processamento.”

3 – Nem toda crítica (questionamento) precisa ser respondida ou discutida. Entenda se cabe a você ou não, se faz sentido pra você ou não. E se não cabe, então deixe ir.

Como seria ouvir uma crítica sem julgá-la? Como você se sentiria ouvindo coisas sem precisar reagir à elas, considerando-a neutra, sem precisar determinar como algo bom ou ruim?

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